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quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Neemias, o sábio!

Neemias estava vivendo confortavelmente como copeiro do grande rei persa Artaxerxes (1.11-2.1). Mas, ao ouvir que seu povo e cidade estavam em grande miséria e ruína, ele se entristeceu profundamente (1.4 e 2.2,3). O lamento de Neemias não é de um desesperado, conformista, fatalista, ou do murmurador, que já entregou os pontos e que agora está com espírito de autocomiseração engrossando o cordão das carpideiras. Neemias, movido por compaixão, chora e ora a Deus, buscando uma solução. Neemias se coloca como um instrumento nas mãos de Deus, como um agente transformador da realidade. Ele chora, ora e age!

Diante de tamanha crise, Neemias não fica buscando culpados,  que é uma atitude comum daqueles que se auto justificam. Nem tampouco fica olhando em volta a espera de que alguém faça alguma coisa, ou seja, ele não transfere para os outros a responsabilidade. Neemias assume o fardo, pois quer tornar-se parte da solução: “peço-te que me envies...” (2.5).

Neemias era um homem de oração. Ele ora nos momentos de crise (1.4), ora para confessar pecados (1.6), ora quando está sendo perseguido (4.4) e ora diante da tentação (6.9). Antes de falar com o rei, Neemias fala com Deus (1.10). Antes de reformar os muros de Jerusalém, ele buscava a reforma dos muros de seu próprio coração.  Neemias confessa pecados e clama pela misericórdia divina (1.4-10).  Orava e agia, fazendo aquilo que estava ao seu alcance. Neemias orava e vigiava (4.9)!

O rei reparou que Neemias estava triste, o que lhe despertou a atenção, pois nunca o havia visto entristecido anteriormente. Pois, Neemias era um homem alegre, disposto, cheio de fé e amor, que são frutos do Espírito Santo.  Era mesmo de se estranhar que estivesse triste!

Movido por compaixão, Neemias toma uma atitude,  respeitando as autoridades constituídas (2.5-9), ciente de que Deus, que o estava movendo,  também moveria o coração das autoridades (1.10). Com certeza, o fato de Neemias ter sido um funcionário íntegro e leal durante todo o período em que serviu no Palácio colaborou para que o Rei fosse simpático a cada uma das suas solicitações (2.8). Neemias nunca foi um homem rebelde. Certa feita, seus opositores tentaram acusa-lo de rebeldia (2.19), mas tal acusação se provou infundada, pois Neemias possuía uma carta de autorização assinada pelo próprio rei Artaxerxes (1.7-8).

A compaixão nos aproxima dos aflitos. Neemias deixa o palácio e viaja para onde está o problema. Primeiramente, ele busca avaliar a situação em loco a fim de ter uma noção clara da dura realidade (3.13). Neemias não era exibicionista e nem afoito. Ele não chegou abalando em Jerusalém. Esperou três dias antes de tomar qualquer atitude (2.11). Ele começou com discrição, pois, a princípio, não compartilhou com ninguém os seus planos (2.12). Faz uma inspeção noturna para não chamar muita atenção (2.13). Uma avaliação cuidadosa é necessário, pois devemos entender o problema antes de propor soluções.  

Diante da contemplação da calamidade, Neemias  não desanima, pois sua fé em Deus o torna otimista em relação ao futuro. Assim, ele, estrategicamente, busca recursos e promove uma mobilização, motivando a todos para, unidos, reconstruírem os muros da cidade (2.17-18). O recrutamento se faz necessário, pois ninguém constrói muralhas sozinho. A visão, a fé e o entusiasmo de Neemias são contagiantes! O povo responde ao chamado dizendo: “Sim, vamos começar a reconstrução”! E o povo cumpriu o que prometeu! (5.12).

Neemias enfrentou muita oposição. Sempre haverá opositores que se levantarão contra a obra de Deus. Neemias se deparou com opositores externos como Sambalá e Tobias que eram líderes de outros povos, mas também teve de lidar com opositores internos, traidores do próprio povo de Deus, como Semaías (6.13).

Neemias foi escarnecido por seus inimigos, que fizeram pouco caso dele, procurando ridiculariza-lo (4.1-3); ele teve de enfrentar ataques físicos (4.7-8); ataques morais, calúnias (6.5-9); traição de um amigo que também se revelou falso profeta (6.10-13) e teve de encarar inúmeras provocações (6.19).

Neemias, também, revela outras virtudes como a perseverança de quem sabe muito bem o que quer e onde quer chegar, pois ele não desanima diante das críticas dos pessimistas e invejosos de plantão (2.19-20; 6.3). Não subestimava o inimigo, estava sempre alerta, orando e vigiando (4.9, 16). Mas também não se intimidava diante das ameaças dos adversários. Ele dizia: “Não tenham medo deles. Lembrem-se de que o Senhor é que é Grande e temível” (4.14).  Neemias revelou muito discernimento espiritual para não ser enganado pelos falsos amigos e falsos profetas (6.12). Deste modo, Neemias nos ensina a levantar muros de proteção não apenas em volta da cidade, mas também em torno de si.

Neemias mostrou-se íntegro mesmo após assumir a posição de governador (6.14-18).  Neemias não foi para Jerusalém porque intencionava o posto de Governador, sua missão foi motivada por pura compaixão (1.3-4). No entanto, como ele foi fiel no pouco, sobre muito foi colocado, mas, mesmo assim, seguiu sendo leal a Deus e aos seus princípios éticos (Mt 25.23).

Neemias nos conclama a lutar em favor da família! “lutem por seus irmãos, por seus filhos e por suas filhas, por suas mulheres e por suas casas” (4.14). Notar também o que está registrado em Neemias 3.28: “fizeram reparos cada um em frente de sua própria casa”.  Precisamos fechar as brechas da muralha para nos protegermos contra os ataques inimigos (4.7). Devemos também lutar contra todos os inimigos que pretendem destruir a família, lembrando que nossa luta não é contra carne e sangue, mas, sim, contra os exércitos espirituais que semeiam a corrupção e que atuam sobre os filhos da desobediência (Ef 6.12 e 2.1-2).

Neemias sabia liderar com sabedoria, firmeza, coragem, ânimo, determinação e planejamento.  Certamente, valeu-se de toda a sua experiência adquirida ao longo dos anos em que serviu ao rei. O capítulo 3 revela detalhes de toda a bela organização de tarefas. Cada um ficou incumbido de uma tarefa específica. Havia muita cooperação como se pode observar através das inúmeras expressões do tipo “ao lado de” ou “ao seu lado” ou “junto a estes”. Eles trabalhavam em equipe e estavam também organizados em turnos, de modo que quando uma equipe terminava o seu turno, logo era substituída por uma outra que dava sequencia ao trabalho (3.16, 17, 21, 24). Grandes coisas acontecem quando não nos importamos com quem é que vai levar a fama! Tem muita gente que age como quem diz: “eu não vou colocar azeitonas na empada de ninguém”.  Atitude mesquinha e deplorável que conspira contra a obra de Deus. Gente desta espécie que deseja sempre ser o centro das atenções e que busca sempre receber a fama e o destaque não tem parte no Reino de Deus. Ai destes, como disse Jesus, pois “fazem todas as obras a fim de serem vistos pelos homens; pois trazem largos filactérios, e alargam as franjas das suas vestes, e amam os primeiros lugares nas ceias e as primeiras cadeiras nas sinagogas” (Mateus 23:5-6).

Os muros foram reconstruídos em apenas 52 dias (6.15)! Isto é que é trabalho em equipe debaixo da orientação e da bênção de Deus (6.17)!

A reconstrução dos muros trouxe dignidade, proteção e paz para a cidade de Jerusalém.  Mas o trabalho não parou por aí, pois o mais lindo foi que Neemias colaborou para o povo de Deus voltar-se a dar ouvidos as Escrituras Sagradas (Cap. 8). A Palavra de Deus produziu um grande avivamento espiritual! O povo fez um pacto (9.38) no sentido de priorizar as coisas de Deus: “Não negligenciaremos o templo de nosso Deus” (10.39). O povo se comprometeu com a construção das muralhas e agora está também comprometido com a edificação da Casa de Deus! O povo de Deus é povo do pacto, povo aliançado com Deus, povo comprometido com a Missão! Não podemos ser cristãos nominais, não podemos servir a Deus de qualquer maneira. Como Jesus, Neemias purificou o templo! Ele mostrou-se também muito zeloso quando a necessidade de santidade no ministério sacerdotal (13.26-30).

Quantas preciosas lições podemos aprender com este fiel servo de Deus que foi Neemias! 


Bispo José Ildo Swartele de Mello
http://santidadeeunidade.blogspot.com
http://escatologiacrista.blogspot.com

sábado, 22 de outubro de 2011

O Pecado de Moisés


Um alerta a todos os cristãos

Baseado em Números 20

Por Bispo Ildo Swartele de Mello

Moisés é conhecido por sua mansidão, fé e obediência a Deus. Tais qualidades caracterizaram o seu ministério. Mas, agora, já no final, ele peca. Qual foi o seu pecado?
O contexto era o seguinte: Após o funeral de Miriã, irmã de Moisés, o povo de Israel murmurava contra Moisés e Aarão, servos de Deus, reclamando da falta d'água. Moisés busca a orientação de Deus, que lhe diz para que falasse a rocha pra que dela saísse água.
O problema foi que Moisés não seguiu estritamente as orientações divinas. Ele acabou desobedecendo e desapontando a Deus (v. 12).'Em vez de falar a rocha, Moisés, amargurado, frustrado, irritado, perde a paciência com o povo quando contempla a nova geração cometendo o mesmo pecado de incredulidade e murmuração de seus antepassados. Moisés está irado (v. 10), e, por isso, fala irrefletidamente, com o povo e fere a rocha com o bordão por duas vezes (Sl 105.32-33 diz: "Depois, o indignaram nas águas de Meribá, e, por causa deles, sucedeu mal a Moisés, pois foram rebeldes ao Espírito de Deus, e Moisés falou irrefletidamente").
Por que Moisés se irou tanto? Não era a mansidão o seu ponto mais forte? Moisés havia amadurecido muito na área de mansidão, pois 40 anos já haviam se passado desde o registro de sua última atitude mais intempestiva quando quebrou as tábuas da lei em vista da idolatria do povo. E olha que nestes 40 anos não faltaram oportunidades para a ira de Moisés. Mas ele se portou de maneira muito mansa e paciente, sinal de sua plena confiança em Deus.
Então, por que ele não demonstrou aqui a mesma paciência de antes? Não teria ele se irado por achar que todo seu esforço durante aqueles 40 anos dirigindo aquele povo tinha sido em vão? Não teria ele sido tomado por uma sensação de fracasso pessoal? Digo isto, pois eu também passei por algo semelhante quando após haver me dedicado a evangelizar e discipular um locutor da Rádio, onde eu trabalhava, depois de mais de 6 meses de esforço concentrado, com a graça de Deus, ele havia abandonado os vícios e feito muitos progressos, mas, num determinado dia, ele retrocedeu abruptamente para o pecado. Fiquei indignado com a situação e me zanguei com ele. E para minha surpresa, ele me disse: ‘você não está triste por meu estado em si, mas, principalmente, por seu fracasso em me conquistar para Cristo, pelo seu tempo perdido!” Ele percebeu que minha ira não possuía as motivações mais puras. Talvez tenha sido este também o caso de Moisés.
Observar também que Moisés disse ao povo: “Faremos sair água” (v. 10) – Teria Moisés, aqui, num momento de crise de autoridade espiritual, chamado a glória para si? Pois, Deus diz que ele “Não Santificou a Deus” (v. 12; Nm 27.14).
Deus disse que Moisés também agiu com incredulidade (v 12). Em que sentido Moisés não creu em Deus? Parece que Moisés não confiou na Palavra, pois Deus mandou apenas que ele falasse a rocha, mas Moisés não achou que fosse suficiente falar, ele resolveu apelar para a força e feriu a rocha, não apenas uma, mas duas vezes. "Nem por força nem por violência, mas pelo meu Espírito, diz o Senhor dos Exércitos!" Diferente de Moisés, temos o exemplo do centurião romano que mostrou fé na Palavra: Mas o centurião respondeu: Senhor, não sou digno de que entres em minha casa; mas apenas manda com uma palavra, e o meu rapaz será curado (Mateus 8:8). Pedro também demonstrou fé na Palavra: “Nada temos pescado até agora, mas sob tua Palavra lançaremos as redes". No entando, Moisés apelou para o bom, seguro e tradicional método da vara. Agiu na carne. Não obedeceu a orientação do Espírito. Não esperou em Deus. Confesso que já senti esta tentação. As vezes não seguimos a direção do Espírito por nos sentirmos muito mais seguros em agir de outra forma, ou seja, da nossa maneira. Somos tentados a apelar para métodos, recursos e artifícios a fim de demonstrar nossa autoridade espiritual. As vezes o pregador grita, não porque esteja movido pelo Espírito, mas porque sente seu sermão não está agradando ou exercendo o resultado esperado.
Quando eu estava preparando esta mensagem. Fiquei pensativo. Não sentia muita firmeza, pois não teria tempo de me preparar como gostaria. Pensei em lançar mão do bom e seguro método da vara, apelando para o esboço de algum sermão antigo, ou coisa do gênero. Foi aí que esta mensagem mais me falou ao coração. Vencido pelo Espírito, vim aqui comunicar o que Deus me deu como mensagem. A Palavra de Deus é viva e eficaz. Ela não volta vazia. Devo confiar.
Este episódio também nos ensina que devemos perseverar até o fim. Muitos anos de experiência em andar com Deus não nos tornam imunes ao pecado. É preciso vigiar. Moisés pecou naqueles que haviam se tornado pontos fortes de seu caráter e ministério: confiança e mansidão. O pecado traz graves consequências. Moisés foi impedido de entrar em Canaã. Cuidado com o pecado!
Lendo o salmo 95, notei que a ira de Moisés o levou a desobedecer a Deus. Moisés não queria dar água ao povo. No entendimento de Moisés, o povo não merecia receber água. Deus deveria punir o povo e não lhe pedir que falasse a rocha para que dela saísse água para o povo. Talvez Moisés quisesse fazer justiça com as próprias mãos, não confiando e nem esperando a manifestação da justiça divina.
Quantas vezes nos sentimos como Moisés indignados com uma ou mais pessoas que agiram de modo a esgotar a nossa paciência, mas Deus nos diz para falar e dar água ao povo. Jesus pede para darmos a outra face e para caminharmos outra milha. Deus quer que não paguemos o mal com o mal, mas deseja nos ver dando água para o nosso inimigo. Ficamos indignados, não queremos dar água ao povo, queremos justiça. Este texto nos ensina a não sermos vingativos, mas a darmos lugar a justiça divina (Ver também Rm 12).
Este episódio nos adverte contra o perigo do pecado. Devemos vigiar. Devemos confiar sempre no Senhor. Precisamos ter fé na Palavra e não em nós mesmos. Jesus falou: "Sem mim nada podeis fazer!" Devemos depender sempre de Deus e não confiar em nossa própria técnica. Devemos dar glórias sempre a Deus e não chamar a atenção para nós mesmos. Não devemos fazer justiça com as próprias mãos, não devemos ser vingativos. Não devemos pagar o mal com o mal, mas sim com o bem, dando água e comida aos nossos próprios inimigos. Vamos confiar e sempre esperar em Deus!

Mensagem Aos Pastores Baseada Nas Parábolas Do Reino de Mt 13

Mensagem Aos Pastores Baseada Nas Parábolas Do Reino de Mt 13

O Profeta de Duas Caras

O Profeta de Duas Caras

O líder cristão, um humilde servo



A cultura contemporânea despreza o frágil, o dependente e gosta dos que se mostram fortes, competentes e autossuficientes. Isto favorece os espertalhões que são capazes de esconder suas fraquezas, manipulando para exercerem o controle e receberem maior reconhecimento. Mas não é assim no Reino de Deus, onde “os primeiros tornam-se os últimos e os últimos, primeiros” (Mt 20.16). Jesus escolheu os pequeninos (Mt 11.26), sim, Ele escolheu as coisas insignificantes do mundo, as desprezadas e as que nada são, para reduzir a nada as que são (1 Co 1.28). Os primeiros no Reino são os que seguem o exemplo do Mestre, que veio para servir e não para ser servido (Mt 10.45), e que assumiu a humilde condição de servo ao lavar os pés dos próprios discípulos (Jo 13.12).

Moisés, Isaías e Jeremias sentiram-se pequenos e inaptos para o ministério a que foram chamados. E não podemos nos esquecer que Davi era o último da casa de seu pai quando foi escolhido para ser o rei de Israel. João Batista rejeitou a autopromoção, a histeria e o exibicionismo, pois não gritava nas praças buscando chamar a atenção para si, pelo contrário, João Batista disse que convinha que ele próprio diminuísse para que Cristo crescesse. Renúncia e sofrimento fazem parte do chamado dos discípulos que devem carregar a cruz à semelhança do Mestre (Lc 9.23).


O líder cristão não deve se comportar como dominador do rebanho, mas deve guiar, inspirar e influenciar pelo exemplo (1 Pe 5:2-3). Deve lembrar que o próprio Rei Jesus entrou em Jerusalém de maneira humilde e mansa, montado em um jumentinho (Mt 21.5). “Nem por força e nem por poder, mas pelo meu Espírito, diz o Senhor dos Exércitos” (Zc 4.6). Portanto, a entrega humilde e amorosa de nossas vidas ao serviço do próximo deve caracterizar a vida de todos os líderes cristãos.

O líder cristão é alguém que sabe lidar com as outras pessoas não no nível "eu sou superior a você, pois sou seu líder", mas no nível "sou seu servo, conte comigo". Tornando-se, assim, uma pessoa acessível aos outros, pois ele segue o exemplo de Jesus, que cativava as pessoas, que sempre queriam estar junto a si.

Um líder verdadeiramente cristão não tem o desejo de liderar, mas é pressionado a aceitar uma posição de liderança pelo chamado interno do Espírito Santo e pela pressão das circunstâncias externas. Pois aquele que tem a ambição de liderar está desqualificado para ser líder. O verdadeiro líder cristão não tem o mínimo desejo de mandar na herança de Deus, mas é humilde, gentil, possui espírito sacrificial, pronto para liderar como para ser liderado, quando se deparar com alguém mais capacitado que ele ou em posição de comando. Pois, só quem sabe ser submisso, pode também liderar com excelência.

Líderes seguros delegam poderes aos outros. O bom líder deve encontrar líderes e desenvolvê-los, dando-lhes recursos, autoridade e responsabilidade, e depois garantir-lhes liberdade para agir. Pois, a capacidade de realizar está ligada a capacidade de delegar poder. Muitos líderes não delegam poder por medo de perder o cargo para o outro, reflexo de sua baixa autoestima e da falta de confiança em Deus.

Henri J.M. Nouwen chama a atenção para a grande tentação que acomete os líderes cristãos: o desejo de ser espetacular e causar impacto. Ser relevante, notado, referido, popular, destacado, bombástico, “o melhor”. Tem gente que busca a liderança como instrumento de autopromoção e que só participa ativa e dedicadamente de algo que lhe traga reconhecimento e honra. São do tipo de pessoas que "não colocam azeitona na empada de ninguém". Tais pessoas estão muito longe dos bem-aventurados pobres de espírito (Mt 5). Muito longe de Jesus, que jamais perseguiu a fama, pelo contrário, vivia fugindo dela. Tais cristãos precisam dar ouvidos a exortação do Apóstolo Paulo que disse: “Nada façais por partidarismo, ou vanglória, mas por humildade, considerando os outros superiores a si mesmo... Tende em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus, pois ele, subsistindo em forma de Deus, não julgou como usurpação ser igual a Deus; antes a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo, tornando-se em semelhança de homens; e, reconhecido em figura humana, a si mesmo se humilhou, tornando-se obediente até a morte, e morte de cruz” (Fp 2:3-8). Grande coisas acontecem na Igreja quando ninguém se importa com quem vai levar a fama! Quando consideramos os outros superiores a nós mesmos e nutrimos o espírito humilde de Cristo!

Levou um dia para tirar o povo do Egito, mas quarenta anos para tirar o Egito do Povo. O capítulo nove de Lucas revela que os discípulos, por vezes, manifestaram o espírito deste mundo: “pediram para descer fogo do céu” (v.54). Jesus repreende perguntando “não sabeis de que espírito sois?” (v. 55). Os discípulos estavam agindo como agem os do mundo procurando destruir e eliminar os que fazem oposição, pois queriam impedir que alguém continuasse a pregar e a expulsar demônios somente por que não fazia parte do mesmo do grupo deles (v. 49). E, os discípulos, imaturos, ainda disputaram por posições (v. 46).

Os discípulos também procuravam se esquivar do tema da cruz. Jesus falava da cruz (Lc 9.44) e eles ignoravam o tema e logo mudavam de assunto inquirindo e disputando sobre algo que lhes parecia bem mais interessante, ou seja: “qual de nós será o maior no Teu Reino?” ( Lc 9.45 e 46). Os discípulos tinham uma concepção do Messias apenas em termos do Rei vencedor, que restauraria o Reino a Israel. Criam que ele se manifestaria ao mundo com grande poder e glória ainda naqueles dias e não podiam pressupor um caminho de cruz, sofrimento, humilhação e rejeição nem sequer como estágio para o estabelecimento do seu Reino. Sentiam-se prontos para reinar com Cristo, mas tinham que aprender a ser menores como uma criança, pois o menor é que é de fato o maior, e também deveriam aprender a servir como servos de todos. (Lc 9.47-48). Em 1 Coríntios 1, vemos algo semelhante acontecendo só que no sentido inverso, ou seja, havia disputa entre os coríntios sobre quem seria o maior dos apóstolos, quem seria o melhor dos cristãos e qual grupo era o mais cristão de todos. Paulo responde a esta disputa que inclusive incluía o seu nome, dizendo que ele nunca quis um lugar de destaque e que ele só quis saber de Cristo e este crucificado. Paulo critica a sabedoria deste mundo que é míope para ver o poder e a sabedoria de Deus que se revelam na “fraqueza” da cruz.


Fomos enviados por Cristo ao mundo como Cristo mesmo foi enviado pelo Pai (Jo 17.11-18). “Para que os que vivem não vivam mais para si mesmos, mas para aquele que por eles morreu e ressuscitou” (2 Co 5.15). A Vida é o que de melhor alguém pode dar a seu semelhante. Pois, "quem não sacrifica nada não ama. Quem sacrifica pouco ama pouco. Quem sacrifica tudo ama totalmente" (Monier Vinard). Perguntaram a William Booth, fundador do Exército de Salvação, qual era o segredo da grandeza de seu ministério, ele respondeu: "Deus teve de mim tudo o que Ele quis". Infelizmente os evangélicos seduzidos pelo consumismo têm feito o contrário: exigem de Deus tudo o que eles querem.


Jesus passou pelo deserto antes do início de seu ministério (Mc 1.12). Elias (1Rs 17.3) e Moisés (Êxodo) também. Paulo foi para o deserto (Gl 1.17). Temos muito a aprender sobre deserto na vida dos servos de Deus. Cruz e deserto estão em sintonia, são sinônimos. O estilo de liderança de Jesus foi marcado pela cruz, pelo deserto, pelo burrinho, pelo balde e a toalha (Jo 13.12). Sendo Senhor, foi humilde e assumiu a condição de servo. Não foi dominador, mas procurou cativar pelo amor, pela graça e pelo exemplo. Não constrangeu os seguidores pela força, deixando-os sempre livres para escolher e até mesmo desistir (Jo 6.67). Seu estilo de liderança nada tem a ver com o estilo de governar deste mundo, sendo, de fato, um estilo às avessas do padrão comum de autoridade mundana que se impõe pela força. Tal estilo deve caracterizar a vida de todos os verdadeiros líderes cristãos.

Bispo José Ildo Swartele de Mello
metodistalivre.org.br
O Líder Cristão, um humilde servo

A importância vital de santidade no ministério pastoral


Os filhos de Eli, os profanos e o santo (1 Sm 2 a 7)

Mensagem sobre a importância vital de santidade no ministério pastoral.

Eli havia sido especialmente escolhido por Deus para ser Sacerdote e juiz em Israel (2.28). Mas, infelizmente, Eli não foi fiel em sua missão. Principalmente por conta de seus filhos, Ofni e Finéias que se tornaram sacerdotes sem as qualificações morais. Eles eram profanos, desprezavam as coisas de Deus, fazendo pouco caso do sagrado. Não se contentavam com o seu salário, tomaram para si aquilo que pertencia a Deus, explorando o povo, fazendo comércio das coisas de Deus, desonrando assim seu ofício sacerdotal (2.12-17). Além disto, Ofni e Finéias tomavam partido de sua liderança para assediarem e praticarem sexo com diversas mulheres (2.22). Eli chamou a atenção deles, mas eles não deram ouvidos ao seu pai, pois eram rebeldes (2.23-25). O pecado de Eli foi não ter sido enérgico o suficiente. Ele acabou sendo tolerante e conivente com os pecados dos filhos, permitindo que seus filhos seguissem no ministério sacerdotal. Deus se queixou de Eli, dizendo que ele honrou mais aos filhos do que a Deus. (2.29).
Os pecados de Eli e seus filhos levaram o povo a afastar-se também de Deus (2.24). Deus retirou sua bênção e o povo foi derrotado em uma batalha contra os filisteus (4.2). O povo achava que a Arca da Aliança os salvaria, chegaram até a trazê-la para o campo de batalha. Fizeram um culto fervoroso. Ofni e Finéias estavam segurando a Arca, mas tal fervor não alcançou os céus e não passou de puro entusiasmo humano (4.5). Fizeram muito barulho, mas Deus não os atendeu (4.10). De nada adianta a Arca da Aliança quando não estamos sendo fiéis a Aliança. Deus diz: "Obediência quero e não sacrifícios” (1 Sm 15.22-23). Trinta mil homens morreram naquela batalha, entre eles, Ofni e Finéias. A Arca foi parar nas mãos dos filisteus (4.11). Eli, abalado com a notícia, também acabou morrendo (4.18). A mulher de Finéias, que estava grávida, deu a luz prematuramente e arrasada, colocou em seu filho o nome de Icabô (4.21), que significa, foi-se embora a glória de Israel. Com Icabô encerra-se dramática e emblematicamente a era sacerdotal de Eli e seus filhos.
Enquanto, Eli, Ofni e Finéias trouxeram derrota e vergonha para o povo de Deus, o Senhor estava agindo para vindicar a glória de seu nome que estava sendo blasfemado entre os filisteus, que chegaram à ousadia de tripudiar colocando a Arca da Aliança diante da estátua do deus Dagom (5.2). Um fenômeno aconteceu repetidas vezes, a estátua de Dagom amanheceu caída diante da Arca (5.3)! Associado a isto, uma praga acometeu a saúde do povo daquela cidade (5.6), de modo que um temor se abateu sobre os filisteus, a ponto de eles decidirem devolver a Arca ao povo hebreu (6.1.21)! O temor de Deus que faltou a Ofni e Finéias agora é visto entre os pagãos! Este episódio me faz lembrar-nos de Jesus quando disse: "se estes se calarem, as próprias pedras clamarão” (Lc 19.40)!
Mesmo antes da morte de Eli, Deus já havia escolhido seu sucessor: o menino Samuel, cujo nascimento já havia se dado através de uma intervenção milagrosa de Deus (1.1-2.11). Devido aos pecados de Eli e seus filhos, a Palavra de Deus era muito rara naqueles dias (3.1). Mas "antes que a lâmpada de Deus se apagasse" (3.3), a Palavra de Deus se manifestou a Samuel (3.4), que ao contrário das atitudes rebeldes de Ofni e Finéias, acolheu a voz de Deus, dizendo: "Fala Senhor porque teu servo ouve" (3.10). Ofni e Finéias não obedeciam ao pai (2.23-25), já Samuel dava ouvidos as instruções de Eli, que para ele era um pai adotivo (3.9-10).
Devido a sua prontidão em obedecer ao Senhor, Deus fez de Samuel um verdadeiro profeta (3.19), que, após a morte de Eli, Ofni e Finéias, tornou-se naturalmente o líder de Israel. Samuel é usado por Deus para promover uma verdadeira reforma! Um reavivamento espiritual transformou a nação! Ele conclamou o povo ao arrependimento (7.3). O povo confessou os seus pecados (7.6), abandonou os seus ídolos (7.4) e voltou-se para Deus com humildade, jejum e oração (7.6). Diante de uma nova ameaça de guerra contra os filisteus, o povo solicitou a Samuel que intercedesse por eles diante de Deus (7.8). O Senhor respondeu dos altos céus (7.9), trovejando sobre os filisteus (7.10), que acabou sendo derrotado nesta guerra (7.10). Que contraste vemos aqui em relação à atitude triunfalista e arrogante do povo liderado por Ofni e Finéias que festejava com brados de vitória o fato de possuírem a Arca (4.5). Suas palavras de confissão positiva não lhes garantiram a vitória (4.10), no entanto, as palavras de confissão de pecado e culpa, e suas orações humildes reconhecendo sua total dependência de Deus, foi o que produziu uma resposta retumbante dos altos céus! Não é o barulho na terra que produz barulho no céu, mas, sim, corações humildes e contritos diante do Criador! Não adiante ter carisma da Arca e do Sacerdócio, é preciso ter o caráter de servo, pois nada substitui a obediência.

Gostaria de terminar ressaltando o impressionante contraste observado no uso de palavras emblemáticas no final destas duas guerras. A primeira guerra liderada por Ofni e Finéias termina em desgraça retratada pelo termo Icabô (4.21), já a segunda guerra termina em triunfo expresso pelo termo Ebenézer (7.12), que significa: "Até aqui nos ajudou o Senhor!". Os pecados de Ofni e Finéias e a corrupção do povo produziram um Icabô, já a santidade de Samuel e o arrependimento do povo geraram um Ebenézer. Quanto a nós, com quem é que nos identificamos nesta história? Como é que terminará a nossa própria história de vida se continuarmos no curso em que estamos? Qual será a nossa exclamação final: Icabô ou Ebenézer?

Bispo Ildo Mello
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